Instrumentos básicos do investimento: liquidez (depósitos, certificados de aforro, etc)
Pontos chave do Post
- Os produtos de liquidez ou "equivalentes de dinheiro" são dos mais utilizados pelos portugueses e incluem depósitos bancários e certificados de aforro.
- São produtos com retornos modestos e insuficientes para anular o efeito da inflação. Por outro lado são estaveis e seguros.
- Os depósitos a prazo surgem com varias modalidades. Têm tipicamente retornos baixos, particularmente em Portugal, mas podem ser encontrados depósitos promocionais com taxas mais razoáveis. Apesar de não terem custos/comissões diretas, existe uma margem de lucro significativa para os bancos.
- As contas em corretoras com juro sobre o capital não investido tem surgido como uma opção nos últimos anos. Oferecem retornos melhores do que a maioria dos depósitos. Contudo, as garantias de cobertura não são lineares.
- Os instrumentos de aforro do estado, em particular os certificados de aforro, são populares e têm taxas de juro melhores que a média dos depósitos. São fornas mais baratas para o estado se financiar, pelo que existe um incentivos para manter estes produtos.
- Os fundos de mercados monetários são instrumentos menos conhecidos e que apresentam rentabilidades próximas das dos certificados de aforro. São mais complexos, podem implicar comissões e não estão protegidos por um fundo de garantia. São contudo fiscalmente eficiêncientes pelo que podem ser vantajosos de forem mantidos durante muitos anos.
- Devido aos retornos modestos, os instrumentos de liquidez não são adequados para investimento a longo prazo. Contudo, a sua estabilidade torna-os ideais para uso como fundo de emergência ou para poupança a curto prazo.
Nos post anteriores falamos de vários conceitos essenciais para o investimento: porquê ser importante investir, da relação do risco retorno e do poder do juro composto. Agora está na altura de falar dos principais instrumentos para o investimento: liquidez (também descritos como "equivalentes a dinheiro" ou "cash), obrigações e ações. Neste episódio vou falar sobre as opções de liquidez que temos disponíveis.
O investimento em liquidez é a forma de investimento com menor volatilidade mas também retorno mais modesto. Aqui incluem-se os depositos a prazo e os certificados de aforro que são dos instrumentos financeiros mais populares para os portugueses. Nos últimos anos têm surgido “contas” remuneradas para o dinheiro não investido nas corretoras.
Existem também os fundos monetários (Money Market Funds, em inglês) que são um instrumento menos usado mas com algumas características interessantes.
Depósitos a prazo
Nos depósitos a prazo é cedida uma determinada quantidade de dinheiro a um banco durante um período de tempo. Em contrapartida o banco paga um juro pelo direito de usar esse dinheiro. Se os depósitos forem realizados num banco em Portugal o juro é entregue após ser retido o imposto (28%). Por exemplo, se depositarmos 1000€ num deposito a um ano com juro de 2%, sabemos que durante um ano os 1000€ estão retidos pelo banco; no fim do ano são devolvidos com um juro de 20€ - contudo como o imposto é retido na fonte (o banco paga diretamente ao estado o impsoto) apenas nos chegam a conta 14,40€.
Na forma mais frequente, quando o depósito chega ao fim da sua maturidade, o valor investido e o juro são depositados/creditados na conta corrente. Há alguns tipos de depósitos de renovação automática em que no fim do período de maturidade é automaticamente criado um novo deposito com o valor que tinha sido depositado inicialmente, sendo o juro créditado na conta a ordem (depósito automático sem capitalização). Existem também depositos em que o próprio juro também é acrescentado automaticamente ao novo depósito (depósito automático com capitalização). Os depósitos de renovação automática merecem alguma atenção pois é frequente os bancos darem uma taxa naior no depósito inicial e que depois é reduzida nas renovações.
Os depósitos podem também implicar imobilização dos valores - em que o depositário não tem acesso ao dinheiro até à maturidade dos depósitos - ou podem ser mobilizáveis. Os não mobilizáveis frequentemente oferecem taxas ligeiramente superiores para compensar o risco de ter o dinheiro "preso". Nos mobilizáveis, parte ou a totalidade do valor investido podem ser retirados sendo que habitualmente se perde o direito ao juro - em alguns depósitos perde-se a parte do juro correspondente ao montante levantado; noutros depósitos o facto de se levantar qualquer quantia faz com que se perca todo o juro.
Os depósitos a prazo em Portugal têm oferecido taxas abaixo da média da zona euro. Embora mesmo no final de 2025 existissem depósitos promocionais até 3%, a taxa média dos depósitos em Portugal em Outubro/2025 era de 1,37% (para a média da zona euro de 1,77%). Para referência, a inflação média em 2025 foi de 2,3% o que significa que a grande maioria dos depósitos não superou a inflação ainda antes de serem aplicados os impostos / retenção na fonte. Para conseguir superar a inflação, os depósitos teriam que ter uma taxa bruta (TANB, antes de aplicação de impostos) de 3,19% - virtualmente impossível atualmente. Este padrão tem sido habitual em anos anteriores em que os depósitos médios não conseguiam bater a inflação.
Existem produtos designados como depósitos estruturados que são habitualmente depósitos não mobilizáveis que têm uma taxa base (normalmente baixa) a que se acresnta uma taxa variável que depende do resultado de outros ativos - normalmente ações. São instrumentos teóricamente atrativos pois combinam a segurança dos depósitos com possíveis ganhos adicionais do componente variável. O problema é que o cálculo do componente variável é frequentemente obscuro e as rentabilidades deste tipo de depósitos são habitualmente baixas.
Os depósitos são vistos como produtos sem comissões e na verdade não é cobrada qualquer comissão direta. Contudo, as baixas rentabilidades medias e a grande amplitude de rentabilidade oferecidas sugere a existência de uma margen significativa de lucro para os bancos. Por exemplo uma das taxas de referência para financiamento ente banco é a taxa de curto prazo do Euro (Euro Short Term Rate, €STR) que corresponde a taxa que os bancos europeus cobram entre si para contratos de financiamento de muito curto prazo (1 dia). À data da publicação deste post fixa-se em 1,92%. Caso o retorno mínimos que o banco obtivesse dos fundos que são depositados fosse apenas a €STR, o ganho face ao juro médio oferecido nos depositos seria de 0,55% - uma "comissão" muito acima de outros produtos com retorno muito superior como os ETF de ações. Embora seja uma simplificação, permite dar uma ideia da margem de lucro que os bancos têm a custa dos depositantes - particularmente em portugal
Como compensação do baixo retorno, os depósitos são muito seguros: não existe flutuação do valor e em caso de falência do banco, os depósitos até 100.000 € por depositante estão protegidos pelo Fundo de Garantia de Depósitos.
Por último a tributação. Os juros dos depósitos são taxados a 28% sendo que este imposto é retido pelo banco e enviado ao nestado antes dos juros serem entregues. Caso seja vantajoso englobar os rendimento na entrega anual do IRS então poderá ser possivel recuperar parte do juro.
Contas remuneradas em corretoras
Várias corretoras de investimento têm oferecido a possibilidade de se obter juros pelos fundos não investido com no caso da Trade Republic, Trading 212 e XTB por exemplo. As taxas são variáveis: 2,2% para a Trading 212; 2% para a Trade Republic; Na XTB 2,3% nos primeiros 90 dias e depois 0,9%. Os juros são pagos diariamente na Trading 212 / XTB e mensalmente na Trade Republic. Existem, contudo, algumas distinções sobretudo quanto às garantias sobre o dinheiro investido e a gestão dos impostos.
Mecanismo de proteção
Nos depósitos em Portugal a proteção dos depositantes é clara: até 100.000 €. A Trade Republic está registada como banco na Alemanha onde existe um mecanismo semelhante. Contudo, parte dos fundos não investidos são alocados a fundos de mercados monetários (que falarei mais a frente) e não apenas em depósitos bancários. Os fundos de mercados monetários são fundos de investimento altamente regulados e que aplicam o dinheiro apenas a instrumentos de baixo risco mas não estão cobertos pelo sistema de garantia de depósitos. A plataforma da Trade Republic não permite perceber quanto do dinheiro não investido está alocado a fundos monetários. Assim, a garantia de deposito pode não se aplicar a 100% dos fundos não investidos. De qualquer das formas os fundos de mercados monetários são instrumentos de baixo risco pelo que a probabilidade de perda de dinheiro é mínima.
A XTB e Trading 212 não são bancos mas sim corretoras de investimento. Existe um mecanismo de proteção mas apenas até 20.000€ (Fundo de Compensação de Investidores). Contudo a Trading 212, tal como a Trade Republic, pode aplicar parte do dinheiro a fundos de mercados monetários que não estão cobertos por este mecanismo - a diferença é que é possível ver na app da Trading 212 quanto do dinheiro está aplicado em fundos do monetários, o que não é possível na Trade Republic. A XTB apenas aplica o capital em depósitos bancários.
Impostos / Tributação
O segundo grande ponto em que os depositos tradicionais diferem destes produtos tem a ver com a tributação. Como se tratam de corretoras não estabelecidas em Portugal, não há retenção do imposto na fonte pelo que os juros devem ser declarados na declaração anual de IRS. A taxa a ser aplicada será de 28% a não ser que se opte por englobar os rendimentos na declaração anual de IRS.
Certificados de Aforro (CA) e certificados do tesouro poupança Valor (CTPV)
Estes são produtos de poupança/aforro organizados pelo estado (mais específicamente a Agência da Tesouraria e da Dívida Pública). Embora tecnicamente sejam instrumentos de divida soberana (do estado), como são as obrigações soberanas do estado português (bilhetes e obrigações do tesouro), têm um modo de funcionamento mais próximo dos depósitos bancários.
Nos CA é feita uma aplicação inicial que não é mobilizável durante 3 meses (período de carência) - tal como um depósito não mobilizável. Após os 3 meses o capital passa a estar disponível para levantamento a qualquer momento. Os juros são creditados cada 3 meses e acumulados/capitalizados automaticamente na conta aforro após a retenção na fonte do imposto (28%) - funciona como um depósito mobilizável com renovação automática e capitalização dos juros. Se for levantado dinheiro antes de serem entregues os juros trimestrais perde-se o direito aos juros que se ganhariam nesse periodo correspondentes ao valor levantado (penalização parcial do juro). Os CA da serie F (a única passível de ser subscrita) tem uma duração máxima de 15 anos. O valor mínimo de subscrição é de 100€.
Os CTPV têm um funcionamento diferente. Existe um período de carência de 1 ano, sendo os juros pagos de forma anual e sem capitalização - não são reinvestidos no CTPV mas creditados na conta a ordem associada. Os CTPV têm duração de 7 anos. O valor mínimo de subscrição é de 1.000€. Tanto os CA como os CTPV são garantidos pelo estado português e o seu pagamento só ficaria em causa perante uma crise financeira muito grave - como quase aconteceu em 2011.
Quanto às rentabilidades o funcionamento é também bastante diferente. O juro dos CA é indexado à Euribor a 3 meses com um tecto máximo de 2,5%, atualmente de 2,046% o que é melhor que a maioria dos depositos a prazo. Existem depois prémios de permanência (que se aplicam mesmo que o juro base seja 2,5%): 2.º ao 5.º ano: +0,25%; do 6.º ao 9.º ano: +0,50%; 10.º ao 11.º ano: +1,00%; do 12.º ao 13.º ano: +1,50%; e finalmente 14.º ao 15.º ano: +1,75%. Os CTPV tem rentabilidades piores: o juro de base é de 0,7% que vai sendo aumentado gradualmente a partir do 3° ano até 1,6%. Existe um prémio de permanência a partir do 2° ano que corresponde a 40% do valor do PIB daquele ano (até maximo de 1,2%) - atualmente 0,425%). No formato atual, os CTPV só se tornariam competitivos caso houve uma descida muito importante da taxa Euribor. Embora nenhum consiga bater a inflação atualmente, os CA têm rentabilidades bastante competitivas com os depósitos a prazo, sendo que os prémios de permanência permitirão provavelmente superar os melhores depósitos promocionais.
A subscrição, manutenção e levantamento dos CA e dos CTPV não tem nenhuma comissão direta. Contudo, tratam-se de instrumentos que permitem ao estado financiar-se de forma mais barata que os mecanismos alternativos, as obrigações - devemos sempre pensar qual o incentivo para a existência de um instrumentos e neste caso não é benevolência do estado. Apesar de o juro bruto dos CA agora rondar os 2%, na verdade o estado recupera parte desse valor sob a forma de imposto retido na fonte - o juro efectivo pago pelo estado é cerca de 1,44%. Para referência a última emissão de bilhetes do tesouro (BT), uma forna de divida de curto prazo disponível apenas para subscrição incial a grandes investidores institucionais, apresentou uma rentabilidade (yield) de 2,005%. Apesar de os CA se aproximarem mais de instrumento de divida de curto prazo do que de longo, a verdade é que os CA são frequentemente mantidos durante muitos anos. Para comparação nos últimos leilões de divida portuguesa as obrigações (OT) a 10 anos apresentam taxas de juro de 3,05%. Tanto os BT como as OT são também garantidas pelo estado - tal como qualquer obrigação soberana é garantida por esse estado. A possibilidade de recorrer a esta dívida mais acessivel sob a forma de CA (e ainda mais nos CTPV) é um grande incentivo para o estado manter estes produtos.
Fundos de mercados monetários
Os fundos de mercados monetários, também conhecidos cono money market funds (MMF) em inglês, são instrumentos menos conhecidos pelos portugueses mas que têm características interessantes. Tratam-se de fundos de investimento geridos por empresas de investimento mas que apenas aplicam o dinheiro dos investidores em instrumentos de baixo risco: habitualmente empréstimos entre bancos a curto prazo e dívida soberana de curto prazo de estados com boa reputação. São assim fundos com rentabilidade modesta: é frequente a taxa de referência para estes fundos ser a €STR e a rentabilidade dos vários fundos em 2025 rondou 2.1-2.6% . Pode existir alguma flutuação dos valores do fundo mas que é mínima (habitualmente < 0,1%/dia). Podem ser subscritos diretamente num banco como outros fundos de investimento (fundos clássicos) ou negociados em bolsa sob a forma de ETF (Exchange Traded Fund). Não estão cobertos por um sistema de protecção de depositos mas como o investimento é feito em instrumentos de baixo risco é improvável que haja perdas irremediáveis. Mesmo em caso de falência da empresa de investimento ou do banco/corretora onde o fundo foi adquirido, os valores investidos pertencem ao investidor e são segregados/separados dos ativos da empresa/banco/corretora. Existem possíveis comissões de aquisição, custódia e venda consoante o banco/corretora onde o fundo foi adquirido. Existem também comissões de gestão do proprio fundo habitualmente < 0,2% (as rentabilidades publicadas já são após ser aplicada esta comissão).
À primeira vista, são produtos mais complexos, sem garantia de deposito (apesar do baixo risxo) e que têm retornos apenas marginalmente melhores que os CA e que podem ser apagados se existirem comissões significativas - porquê pensar nos MMF? As grandes vantagens destes instrumentos são a capitalização diária e a eficiência fiscal. Como os juros são acumulados todos os dias o efeito do juro composto é mais poderoso do que, por exemplo, nos CA em que o juro é capitalizado cada 3 meses. Relativamente à tributação, apenas é cobrado imposto quando a posição no MMF é vendida. Se esta posição for mantida, por exemplo durante 10 anos só são cobrados impsoto sobre os juros acumulados no momento da venda, apesar de estarem a ser acumulados juros durante 10 anos. Isto permite que o capital cresça mais rápidamente do que se fosse feita retenção na fonte sempre que um juro é entrgue. Este efeito é mais poderoso quanto mais tempo se mantiver o investimento.
Quando usar instrumentos de liquidez
Todos os instrumentos que falamos têm a característica de ter rentabilidades modestas que são atualmente insuficientes para combater a inflação. Assim são inadequados para investimento de longo prazo pois não conseguem preservar o poder de compra e até aumentar o valor real do dinheiro como acontece com instrumentos mais arriscados como as ações. Contudo, como são instrumentos estáveis e de baixo risco são ideais para dois contextos:
1) Fundo de emergência. Queremos que o dinheiro esteja aplicado num instrumento estável, seguro e de rápido acesso. Aqui não devemos optar por depósitos não mobilizáveis pois o dinheiro não está acessível em caso de emergência. Os depósitos, CA e contas remuneradas das corretoras são todos boas opções. Pode também fazer sentido alocar uma parte do fundo de emergência a um MMF. Considerado que existe uma probabilidade importante (e desejada!) de o fundo de emergência nunca ser usado, faz sentido aproveitar a eficiência fiscal dos MMF para atenuar o efeito da inflação. Deixo a nota que é sensato que pelo menos uma pequena parte do fundo de emergência esteja num deposito do banco que se use primariamente, para uso numa emergência com necessidade imediata de dinheiro. Os fundos aplicados em MMF e nas corretoras podem demorar 1-2 dias uteis a estar disponíveis.
2) Poupança de curto prazo (< 1-2 anos). Quando se poupa com um objetivo a curto prazo existe o risco de desvalorização importante se o dinherio for aplicado em instrumentos de risco como ações e mesmo obrigações. Depósitos, CA e contas remuneradas das corretoras são boas opções. Aqui os MMF não tem grande vantagem pois não há tempo para a eficiência fiscal ter impacto. Aqui os depósitos não mobilizáveis podem ser uma opção se oferecerem condições mais favoráveis que os restantes produtos.
Espero que tenho sido uma leitura útil.
Até à próxima!
Poupem e invistam de forma relaxada!


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